Os Anti-Heróis Odiadores do Brasil

É curioso. Eu gosto de Pop e Rock, tolero bem Chico Buarque e Caetano e, não obstante, tenho um fraco por odiadores do Brasil. É só eu bater os olhos em algum texto do Paulo Francis ou do Diogo Mainardi detonando a Pátria que minha vista gruda e eu não consigo largar até chegar ao fim. É um genuíno prazer, quase um vício, que me leva inclusive a caçar odiadores do Brasil porraí, quase como um colecionador. Aliás, eu conheço uns ótimos, a quem devo grandes momentos de curtição, e que guardo ciosamente só para mim, como um pescador que não revela os melhores pontos do rio. Hoje mesmo eu tive um ataque revitalizante de gargalhadas com um deles.

 Às vezes eu me pergunto a razão desse meu vício não tão secreto, se na verdade eu gosto do Brasil e saio pelas nossas ruas na maior bonomia cumprimentando os populares e admirando com sinceridade seus hábitos singelos e encantadores. Uma hipótese é esta tendência masoquista de self-deprecrating, que inegavelmente possuo. Porque não há como negar que sou inapelável e irremediavelmente brasileiro, e meus tataratata’vós recuam nestas plagas malditas pelos menos alguns séculos, com a exceção de um único italiano contrabandeado como bisavô da minha avó ou coisa assim.

 Mas há que se falar mal do Brasil com arte! É verdade que recentemente a prática disseminou-se um tantinho demais, vulgarizando-se e resvalando com freqüência para o tosco e o grosseiro. O sarcasmo é quase sempre um ingrediente necessário na nobre arte de falar mal do Brasil, mas há sarcasmos e sarcasmos. Eu prefiro aquele da face imperturbável, mas prenhe de sutis significados, revelando simultaneamente o utter disgust que queima nas entranhas e a nossa capacidade de manter uma flegmática e pontiaguda ironia – e dessa combinação nasce uma arte zen, um caminho de elevação espiritual mesmo, uma verdadeira estrada da sabedoria.

 E quem achar que isso é uma ironia rombuda contra os odiadores do Brasil merece tomar muito sarcasmo sulfúrico nos cornes.