A INVEJA É UMA MERDA

Luiz Alberto Py é psicanalista e trabalhou no acompanhamento dos participantes do Big Brother Brasil. Ao final da primeira edição do programa, deu uma entrevista explicando a vitória do dançarino bobão Kleber Bam-bam. Segundo ele, a escolha do público expressava uma marca bem típica da brasilidade: a inveja. 

Em outros países, os vencedores de programas do gênero têm sido, em geral, estrategistas inteligentes, ou pessoas bonitas, ou pessoas charmosas; no Brasil, o prêmio foi para o menos invejável dos participantes: um idiota, ignorante, humilde, bobo alegre. Para o psicanalista, o brasileiro que vota nesses programas — derrota máxima — não estaria disposto a entregar tanto dinheiro a alguém que fosse melhor que ele, um vencedor de fato, em qualquer sentido que se dê ao termo. 

Passadas edições do programa, a avaliação do psicanalista permanece inabalável; coincide com o que já se disse por aí em relação aos esportes. Trata-se de uma tendência, sem dúvida. Mais do que o programa — who cares? —, ajuda a entender como chegamos a isto. Se os brasileiros são realmente movidos pela inveja, então a inveja é mesmo uma merda.

Você sabe que o mundo é povoado por (pseudo-)intelectuais de toda espécie (acredite, há mais de uma). Engraçado que a juventude eco-cult-comprei-200-ingressos-pro-festival-de-cinema ainda saia da sala de “Os Sonhadores” com o estômago revirado. Olhos virgens de Bertolucci? Pode até ser. Mas o que parece mesmo é que todos querem ver ação, reação, revolução. Uma sede de engajamento (será?) que condiz muito pouco com nossas atitudes. Uma obra não vale pela estética menos do que pela “moral”. Os parnasianos que o digam, ou não.